Ode à Amada

O dom
de se ser o que é

sem limites ou medo
contido só pelas fronteiras da humildade.

A alegria
de ponderar o que vem

sem folgas ou lasseios
reservado apenas nas noções da irmandade.

A vitória
de alcançar a luz de cada dia

sem correntes ou fardos
obrigado somente às ordens da respiração.

A liberdade
de cantar com o coração

sem berros ou gaguejos
obediente senão à harmonia dos solfejos.

Uma amizade que desafia
paixão provocante revolvendo terra virgem

Um sonho que inicia
despertar de um infinito que se expandia.

A força do silêncio
valsando nas ondas de um mar perfeito

O sabor do mistério
degustado na delicadeza de uma intimidade
- Ah! nobre aparição, sacrossanta rosidade!

Deste-me teus olhos e teu olhar
a atenção e os ouvidos a ressoar

Deste-me a destreza de visões
a pureza e a doçura de opiniões,

Um novo eu
todo novo
transbordando de uma sintonia cálida

Um novo céu
todo novo
colorido na magia de um singelo toque
- Ah! santa revelação, musa desvelada!

Deste tua insegurança
tua fome e tua dor

Deste tudo
tua paz e teu amor
desabrochando em flor,
e era apenas o começo.

Era apenas um começo
que, no entanto, valia já mil vidas.

Verdes Céus

Uma linda alma
transborda pelos olhos
e explode no sorriso.

Cada instante é um começo
pra quem vence o medo do fim,
Cada pulso é uma vida
no coração de quem suspira.

Te ver é te querer
certo como o dia vai nascer,
na aurora de um beijo
no poente de um bocejo -
Te ter é retroceder
ao instante primeiro da inocência.

Sonhos voam com asas de luz
sobre oceanos de paixão,
Lá onde as filosofias se calam
no leito profundo de uma benção
doces tempestades nos acalmam
carícias de relâmpagos e trovões.

Certo como o fogo vai queimar
de ventos e podas se nutrir
Certo como estrela vai surgir
seu destino de alegrias a iluminar.

Até que o dia seja noite
e a noite seja dia
Até que o mar se torne céu
e o céu se faça inundar -
Então e além sei
que estarei a te amar.

Pois que
uma linda alma
transborda pelos olhos
e explode em teu sorriso.
A poesia parou
quase desabafo
foi quase o que virou.

Muitos fios atados
seguram o balão de hélio
mantêm o balão rente ao chão.

O pequeno vício já quase vira descuido
a romanticália de antigamente faz sua vez
parece até que temos que repetir o erro ou a vida estanca.

Eu não sei porque foi que dei de me repetir
de me repetir bem naquelas coisas
ah! sim!, ai... não...

aí, bem, fica bem claro
o porquê de se repetir bem isso isso e aquilo
bem aquelas coisas que vão se revirando
quando deixo de apertar bem firme as rédeas de mim.

O que o rei espartano faria agora?

... é muito mais que correção de postura
ou achar que um semblante muda a vida
a vida muda bem antes dele, isso é certo -

se eu sorrio é porque o cosmos todo precisa disso
quem sabe - como precisava então também de minhas lágrimas?
... de minha amargura?...

Será Deus tão prolixo?
Uma criança, desencanada e invencível em suas peripécias?
Um absoluto que vê e propõe, mas que é verborragia e pouco mais?

... mas que dejeto de escombro de poeta sou eu...

por fim, a rima tomou mais importância que o gargalo do funil,
e por isso, meu rapaz, você está estrepado
e fazendo muito caso da situação,
que, dos males o menor, e nem preciso completar o pensamento...
Houve um tempo em que eu soube rezar
- orar pro outro lado do grande oceano - dos sete mares cósmicos

Houve um tempo em que eu soube dançar
- com a fúria domada uma besta mansa - lagarta divina renascida alada

Houve, ah sim! houve o tempo em que soube mastigar diamantes
e beber da grande taça dourada do horizonte -
houve o tempo em que a juventude purificava o próprio sal com suas lágrimas...

Então um dia o poeta morreu
- morreu pelas mentiras que contou - o poeta foi a última refeição de seu cão raivoso.

Existiam coisas mais importantes que a poesia e os poetas de nádegas amolecidas
soprava o vento na velha fogueira - as brasas erguiam novas labaredas!

Bandeira Verde

Você quer?

Tem que fazer por merecer.

A poesia custa
custo tudo e nada e mais um pouco

custa
custa todos os sopros de um louco

-a poesia?-
tem de se fazer por merecer.

Bem repeti avisei
que um dia você iria crescer

um dia a busca
se tornaria caminho

a dúvida se tornaria sonho
e tudo que vive e viveu
pareceria inofensivo e divertido.

Quanto custa
a poesia

se é arguido que se ouça
aprochegue bem os ouvidos
pois a tábua de passar é cheia de ondas:

custa o isolamento
das amizades que não cabem
de influências indevidas

custa a força de um chão
pra não ver desabar a emoção
quando te apunhalam o espírito

custa uma solidão
saciar a fome com música
dançar até a carne rachar.

Quanto custa
o som dos pássaros?

Ai! pobre tragicômica inanição
toda sabedoria do mundo
toda ciência e toda frieza lógica

mas não aprenderam a sentar
ainda não
ainda não sabem caminhar

apoiados sobre o próprio céu
ainda não
pois a dádiva ninguém pode comprar.

Paga-se o preço
do foco
da atenção

um corpo todo
além daquele que se quebra

um corpo todo outro
só do foco
sua réplica de atenção-

chegue junto de si
você são dois
que precisam estar de acordo
em cada mínimo gesto.

ESTÓRICO