Introduções

O gozo é a origem de toda vida
E também a finalidade reincidente
Do gozo viemos
Ao gozo voltaremos
Voltamos sempre que podemos.

Luta diária contra o mofo e o musgo
No acimentado e nas paredes do corredor lateral
Enfurnado nos quartos e no estúdio de som
O líquen desvairado me punge ao peito
Luta diária contra a tuberculose desbragada
Acendo fogueira no quintal pra curar
Sobem os fumos lázulis e liláses
A grama nova ainda tomando raízes.

O sangue prefere passar discreto
Escondido
O sangue prefere passar silencioso
Mistério
Só jorrar nas bocanhas ímpias
Já goela abaixo do predador
Sem desfalques na mística.

O suor banha o corpo heróico
Sóbrio profano destemido
Ele beija-lha à concha
Chupa fora a fina pérola
Da paixão regalada
Do são assanhamento.

Risos de outrora
E más lembranças de que já me esqueço
O dia me nasceu no meio da madrugada
E só soube agradecer
Só soube dizer perscrutado pelo arrepio
Obrigado pai sem nome
Obrigado pela desavença do desafio
Pela prova de fé
Doída solidão leal que floresceu e borboletrou
Sagaz noção do real que projetou e fundamentou.

Devoro-lhe os miolos caro leitor
E minhas tripas saltam soltas pelas pontas de meus dedos
Cocegando o cócxis tímido e retraído da erudição poeirenta
Um sol implode
Vulcão abrupto do vilipêndio poético
Os invejosos escarnecem
E a musa umedece.

Novidades

Cada dia um
E todos dias um mesmo.

Dia sem fim
Dentre órbitas sutis
Dia branco e rubro e incolor
O sol doce como a água.

O novo nasce em cada instante
Todo instante começando
O começo infinito que é a vida.

Holística orgástica
Da realidade fantástica
Capoeiras do mineral
Maracatus relampejantes
Bastidores do teatro
Ferramentas na oficina.

Da Rosidade

Tênue frágil esgazeada linha
Do contorno das encostas da doce moça
Fantasias de esperanças à flor da pele
Os dedos grossos atabaquistas liam-na
À glozada mortiça donzela
Como lêssem alquimias em braille.

Tinha faces de coração
Bocas bochechas olhos de coração
Singelas nádegas suculentas
Ela era toda um grande coração
E ah benção inominável!
Ah afago esplendoroso da criação
É por mim que ela pulsa!
É com o meu que o coração dela bate!

Tricotadeira entre mil pimpolhos
O sorriso que não cabe na cara
Faz o rosto parecer imenso pra se caber
Os olhos fecham contraem alegria pura
As maçãs do rosto são uma pelúcia
E ela me beija aos lábios quando estou sério.

Sonhei com ela sempre
Nos sonhos que nunca tive
Nos sonhos que nunca soube ter
Foi sempre com ela que sonhei.

Molho De Chaves

Espírito elemental da cor viva
Lâmina flúor secreta sibilando
Flâmulas fugidias do bailarino
O passeio mudo ardia.

Uma troça um desrespeito
Era o que o fazia às vezes odiar
E as sublimes fraudes ensinavam o desprezo refinado.

Mas o respeito pela poesia intocável
O amor por toda obra perfeitamente inconsequente
Digladiou
Pela glória duma liberdade frágil
Teia de aranha em arvoredo quieto.

Mariposas esvoaçam
De suas sortes e das das borboletas alimento-me.

A psicologia é a saliva ácida
Digerinte
Bactéria animalesca carnívora
E uma alienação musicada retém todo ânimo
Nos verdes e roxos da concha furtacor.

A explosão do sentimento lento
Pulso sem peso
Ginga sem medida
O sol em pino escaldava
A madrugada insone da mãe coruja.

O Último Poema

Assim quereria meu último poema
Curto e grosso
Como a vara que cutuca a onça.

Que fizesse supremo todo desenrolar de hálitos juvenis
Que tornasse em cristal toda opacidade descolorida
Trazendo em ciclos sem fim toda atenção ao coração
No ideal prático duma filosofia do sim a tudo que há.

Tamborilo

Sustentáculo de diamante
O sol pulsa violeta do solo cintilante
Antigravidade secreta do espiritualizado
A benção da sombra em meiodia nublado
Refrescava de cevada e haxixe os caroneiros.

Mochilões às costas
Surfando as ondas do sabor
Da cor do pecado
Patinando cítrico à orla.

Distância que reflete respeito
Saudade que ensina o amor correto
O agora explode em gestuária o linguajar lisérgico do xiva dançante.

ESTÓRICO