Crepúsculo Psicotropical

Cai a noite paulista
A palavra pede arrego e descarrego

É disso que se há de sentir saudades
São essas as saudades que vou fazemdo
Aquilo que despois vou dizer que foi o mais bonito que vi e vivi

De pena branca ao cangaço 
Estremelicando sutil baforadas cervejentas de meu orgulho brasileiro
No baião de roda no passinho saci que vem desvendando o coração

Pelo passeio demorado
Em avenida conturbada de feriados
Papai noel nalgum lugar tece fantasias reais

Há quem presenteie mesmo o indigente cadeirante de pele negra tão negra mas dentes bonitos que não deixam a gente ficar com dó

Deus há de cuidar
Que eu me cuide pra que o Senhor cuide de mim

A noite cai
Sonhos nascem sonhos morrem
O coração pulsa alto e há uma pitada de loucura na felicidade mais profunda

Clássica esquina afinada em humildade
Sob postes caiados do alaranjado do magnésio que se mistura com o por do sol

É dia e é noite e a batucada respira
O ganza sacoleja e bebo paz

Mansidão é meu nome do meio
Que o primeiro e o último nem te conto

Sofismencantos

Da treva nasce a luz
E o negro é o pai da liberdade

É disso que vou sentir saudades
Que vou lembrar de quanto é bonito
Essa esquina clássica que é a suprema consolação

Daqui ao paraíso num passo
Mas meu negócio é capote valente
Trisco farpelo me divirto rente

A magricela de shorts laranjas levantou pra sambar

É contágio de alegria e a cerveja do poeta não pode esquentar no balcão.

Da Fidelidade Sintética

Ainda tenho esperança pelo ser humano, fé de que aquela antiga promessa se cumpra. Amo o passado e o presente como quem não tem escolha, construo a dignidade de chamar tudo que existe de perfeito pois reconheço a impossibilidade de qualquer coisa ser diferente do que é neste instante. Mas isso não elimina nossa habilidade de alterar o percurso em meio à jornada, isso não é um mero conformismo que afiança a perfeição universal a fim de abrir mão de qualquer esforço por transformação. A vida é um irretocável passível de polimento, uma obra máxima que convida à criação de novos capítulos.

Se me questionarem a sina desgovernada de acreditar na promessa do ser humano como um salto de inteligência no mundo, se caçoarem da minha vontade talvez juvenil ou otimista de ver a modernidade como um estágio belo e integrante da história de um aperfeiçoamento, faço apenas oferecer uma simples homenagem a meu avô, sábio jornalista, mestre vernacular que, em mil novecentos e oitenta, junto de parceiros de profissão igualmente prolixos, precisou buscar no dicionário o significado da palavra ecologia, quando esta subitamente passou a ser repetida por um visitante pragmaticamente vanguardista.

Se em trinta anos a ecologia passou de desconhecida ao que é hoje, quem sabe em outros trinta o ideal ainda obscuro de energia ilimitada e harmonia política global se torne algo corriqueiro e prioritário. Ainda creio na maioria esmagada, em sua vontade de superação, nos sonhos abafados da emoção, na genuína revolta do amor que semeia dúvida no lamaçal das certezas comodistas.

Sofro pelo mundo e pelo ser humano, por sua dor e seu horror. Mas sofro infinitamente mais por sua promessa, por tudo aquilo que ele poderia e quem sabe deveria ser, sofro pelo carvão que chegaria a ser diamante, pela rocha bruta enterrada que aguarda o supremo escultor. Sofro, mas alimento minha fé, com paciência e milênios à disposição, amamento a esperança de um dia a humanidade se tornar tudo aquilo que ela almeja ser.

A felicidade é rara, raros são os que vivem sem reclamar, sem culpar os divinos mecanismos pelas desgraças da superfície. Mas reclamar dos que reclamam ainda é reclamar. Danço para me libertar, canto para me reconhecer, danço e canto para me esquecer e então relembrar. A vida é fantástica, transtranscendental, é um sonho de olhos abertos e um sonho que sonha de olhos fechados. Minha alegria é a lealdade de amizades, é compartilhar elogios rebuscados à existência. O mais, são minhas fraquezas, que são também minha beleza.

Acredito ainda no ser humano e em sua suprema promessa. É este meu dom e minha arte. É este meu banquete, sirva-se à vontade.

Regue Azul

Se eu regar o céu
Que fruto que dá
Frutas cadentes
De gosto estelar

Vai chover
Maçãs do amor
Carambolas do mar

Se eu plantar estrela
Que água que rega
Bananas nascentes
Da terra solar

Chuva de chocolate
Tempestade a amar-te
Sons do abacate
Salada de fruta que dá

Se eu regar o céu
Que fruto que dá
Murici buriti araçá
Venha cá já

Planetas sementes
De pequenos príncipes
Arando vulcões
Rosas botões

Supernovas flores
De cosmos sabores
Que fruto que dá

Que fruto que brota
O primor primavera
Que acolhe a colheita

Se eu regar o céu
Que fruto que dá.

Contentalento

O que é hoje?
O hoje é tudo que temos
e quando o futuro chegar
ele será hoje
e ainda será tudo que temos.

O que é hoje?
O hoje é eterno
tudo é o eterno
oceano do divino atemporal
o eterno hoje é tudo que temos.

Se há vida após a vida?
Há sua promessa
e uma esperança
- mas da dádiva divina
não peço por mais do que já tenho.

Se tudo que tenho é isto
ou se é mais que isto,
conquanto esteja na presença
nas mãos amorosas de Deus -
não preciso de mais nada.

Não temo à morte,
mas temo sim
morrer longe da luz.

Conquiste eu o mundo
ou só este meu quintal,
conquanto caminhe com o criador
abraçarei corajoso todo começo e todo fim.

Elogio à Resignação

Cuidado
Com aquilo de que reclamas.

Cuidado,
Pode o problema ser ainda pequeno
Menor bem menor que o seguinte.

Cuida com o porque choras
Ao fazer rolarem tuas lágrimas

Que a poça diminuta
Pode ainda ser afogada por um rio,
E o rio inundar-se em oceano.

Cuidado
Com os discursos do teu lamento,

Cuida confrontar o tormento
Que tua flor pisoteada
Pode ainda ser jardim em chamas.

Antes ama teu revés,
Desnuda a alma em consolo

Antes olha ao que ainda tens
Acaricia o sono sem sonhos
Que não trouxe pesadelos.

Antes canta
Lembra-te da dor mas canta e dança

Canta e dança sem esquecimento,
Evita varrer tua sujeira para dentro.

Antes fica quieto
Alonga as juntas da jornada,
Deixa o passado repousar

Dá água à secura do inverno
Alimenta paciente tua emoção,
Antes tires força da resignação.

Cuidado
Com os porquês de teu pranto

Que a vida é suprema
E supremamente frágil,

Que a vida é potência
E potencialmente vulnerável,

Que o sonho é imenso
E imensamente delicado,

Que a coragem é profunda
E profundamente reversível.

Cuidado
Cuidado com as palavras de desdém,

Que se julgas pouco o que tens
Imagina se perdes tua bússola
E desaparece teu pólo norte.

Panturrilhando

Estava doendo
e enquanto doía
de repente me percebi sofrendo.

Por um instante
breve e imenso
quis que não houvesse a dor

mas então percebi
que ainda era hábil ao sofrer
e o dom que isto compreendia.

Quem não quer sofrer
também não pode querer viver
então entendi como estava apto a ambos.

Pedir pelo fim da dor?
Não.

Pedi força pra encará-la e superá-la
Dei graças pela sensibilidade ainda ativa
Amei o fato de ainda não estar calejado demais.

Pedir por mais dor?
Não.

Pedi por mais vida e sabedoria pra vivê-la
Dor, dores, de parto ou do fim de virgindades
Sei que, vivendo e amando, dor e dores sofrerei.

Estava doendo
e enquanto doía
de repente me percebi vivendo.

Por um instante
breve e imenso
quis que não houvesse a dor

mas então percebi
que ainda era hábil ao sentir
e o dom que isto compreendia.

ESTÓRICO