Soulvision
o abraço explosivo da batida colossal
a flama monumental da canção ao coração
as feridas pequenas e grandes inevitáveis nas mais divinas rodas de dança
implosões de libido e inteligência em compassos avassaladores do transe hiperbóreo
a ciência do pé na lama, o som serrando imenso sua reclusa lótus heptadimensional
gigatons de amor em cada rodopio e pirueta, a natureza permitindo um heroísmo
além da dor, o êxtase natural
a cura de toda assimetria através da exacerbação incosequente da força
a comunicação plena e irrestrita através do silêncio mais intransponível
a composição dum mel humano, mundano, nutrindo a coragem do lúcido
a vertigem do abismo do infinito em cada suíngue dos cascudos cósmicos
a saliva sinestésica do ventre que pulula intrépido entre fadas e faunos
o timbre áspero dum espírito endurecido pela desilusão asceta
além da dor, o êxtase natural
a suprema fadiga como harmonia e recompensa
o sorriso orgânico como redenção de toda culpa
o sangue iriscidente como prova cabal de experimentação
além da dor, o êxtase natural
a lascívia entre pensamentos concordantes
a sede de cerveja e a fome de percevejos
a certeza duma carona tranquila de volta à banalidade
enxergar pela alma dos pés e respirar pela raiz dos cabelos
Uma Hora Vaga
em uma hora vaga
pensamos mil destinos
refletimos nossos desatinos
numa hora livre
nos vêm ao encontro os encantamentos
uma saudade doce
o amargo duma desilusão
em uma hora vaga
navego minha nau
a pena meu mastro
o coração minhas velas
eu vulnerável sem lastro
venerando o infindo oceano
planando sem rumo nem engano
o relógio acusa os minutos e seus funerais
sinto os segundos escorrendo na ampulheta de minha emoção
minha paixão enfurece e lúdico aspiro aos nupciais
na minha terra sem terra de barro
pátria de aço vidro e concreto
amadureço em Deus, encaro reto
sonho as cores em mananciais
lúcido em bodas invernais
me entrego à rima como à doutrina
sempre atento e respeitoso
quero me provar dom de gozo
e o casco flutua rasga o véu do saber
fina lã que permeia o eterno recorrer
embaralho minhas vontades e busco a força do instinto
sei que sou o que sou, seja lá o que isso seja
e sem ânsias de entender, me entendo além de explicação
certa feita perpetrara o horrendo ato da descrença
e mergulhara em ilusão funesta
fiz-me suposto onipotente em prol do surpreendente
e feri-me ao olho, à razão
desdisse-me e encalhei ao ribeirão
jovem homem em confusão
quis ser o rei dos reis, um segundo Salomão
mas a maré me arrastou a mim
a tempestade parecia sem fim
o mar se fez deserto
esqueci-me do sim
um sufoco, um aperto
em superstição um despeito
me fingindo do extramundo
mascarado cínico e imundo
fiz o que pude pra me provar de sangue azul
e desprezei o pai ao sul
em uma hora vaga
minha liberdade nasceu e morreu
em seu primeiro terço já me calava
foi a criatividade quem socorreu
numa hora vazia
me compromisso ao descompromisso
estou em pé, porém de joelhos, submisso
de todo rancor me faço omisso
que deixar secar a alegria é rude desperdiço
estatelo semblante à densa brisa
escancaro o sorriso em decisão concisa
ensaio gestos de grato à vida
valso brinco faço circo da ferida
e o povaréu tão quente de meu Brazyw
me acode intermitente ao gargalo do funil
me lembro do verde do cristal do Goiás
me arrepia só de lembrar, aliás!
as indiazinhas do meu sertão
as pingadinhas no baião
corro corro estafo e me zango
pra me curar um bom rango
da Tia Odete ou da Dona Sônia
um cafézinho sem parcimônia
o pão francês do humilde burguês
reparte-se sempre
na míngua ou na fartura
alimenta e faz freguês
endireita e enobrece
mas é pra agora, que endurece!
da vaga hora foi-se meia
daonde estou vejo o horizonte
detrás da parede defronte
da meia hora transcorrida
me comove e assusta a subida
súbita evolução sem saída
certa feita fiz-me pai de mim
uma boa vírgula
um pai de si em si
no tom dourado do amor
e descobri sem pudor a fonte da vida
refiz a fé na corrida
parei pra sentir o sabor
e deixei-me cair em alvo calor
suingando criador
dando nome ao valor
fiz-me poeta e trovador
na nobre benção do louvor
quando dei conta da confusão
quis justificar a intrusão
desculpar-me ao leitor pela alienação
vi chorar o menino na rua
enquanto passeava pelo mundo da lua
mas tive sorte, tenho muita sorte
de ter no cerrado redescoberto a facilidade do cingir
de ter fiel ao fato enternecido meu agir
sorte forte e promissora
que arrebata como boa professora
um nascido em berço de platina
fazendo da caridade brilhante sina
tão belo o imprevisível do partilhar
mil mais cores a respirar
pranto em engasgo a se libertar
tão bela a grande família sem nome
a coragem honesta da boa fome
satisfação vera e intensa do homem
a hora vaga antes vazia
agora dos três terços só tem mais um
última esperança a regressar
sinal da taça que há-de transbordar
e de verso em verso
vai resumir-se a um quarto
a hora quase cheia
e então a um quinto
um sexto
o sétimo divino
e por isso a ponte
a elo do destino
ao começo não sabia o que queria lhe dizer
em rasante eloqüente não se pode adoecer
selo a boca a alma o ventre
cerro o punho o cenho prenhe
deixo cantar meu silêncio
degustando as uvas da Sicília
banhando no leite da vigília
afrouxo minhas rédeas
cavalgo ao largo certezas pétrias
inspiro lento as primícias
dum encerramento em grossas rimas
a cor
do sabor
da dor
do estertor
do amor
o sumo do lume
o sangue no gume
o som do são
o sim na razão
céu profundo
esquina do mundo
fazendo fundo
n'orar vagabundo
quanto valem cinco minutos
na admiração dos enxutos
na inocência dos estultos
quanto valem mil destinos
na integração dos grãs-finos
na gratidão dos nordestinos
quanto vale a virtude
altaneira atitude
nos elevando a altitude
quanto vale o momento
redentor do tormento
oásis de todo alento
a hora vaga vagueia pra longe
nasce outra e pede mama
a curiosidade sagaz responde
o sempre é da lama à lama
Vudus
os infinitos detalhes
a vida em chavões maçantes e desgovernados
por vezes engraçados -
lições aos predestinados
quanto tempo dediquei a amá-la em minha imaginação
mas porém contudo entretanto
é apenas imaginação
e ela roga pra que eu nunca mais a procure
e me vejo na encruzilhada duma loucura
desatino de que me desejo expurgar
e então me consolo novamente na imaginação
desta vez a imaginação de um oceano de amor porvir
e então reencontrar a paz aceitando às limitações inevitáveis
não como um conformismo cínico, ao menos não inteiramente
que a flama queima e quer iluminar
o rio corre e nos convida a banhar
a pura alegria magnéctica do guerreiro da terra termina o serviço
forçando à contemplação inequívoca do organismo
sua rutilante presença
fábula de encrudescência
infinitas tangentes no ó do borogodó
e até um senso de direção provido pelo acento agudo
e a esfera se dilata
o silêncio acolhedor da solidão desperta
firmeza nos punhos e leveza nos dedos
o sonho do real instiga à paixão
em cada pequenino instante
instiga a mil instintos e rebotes e repiques de instintos
instiga à música e ao baile, graças aos bons céus
o preconceito das cores
a particularidade de nossa visão
nossa realidade toda parametrizada por um desenho cristal mui específico
cada estrela que é cada presença
ruge o leão consternado
brada o primevo pai o levante às armas!
nossos hábitos ciganos imorredouros
em suas transformações maravilhosas
nos presenteando néctar em cálice dourado -
até levantando alguma poeira!
Comun In Dios
me sinto forte pra qualquer coisa
minha preguiça morreu
sufocada por uma energia infinita incontível
Mãe Gaya me acariciou
afagou meu ventre cósmico
e minha bandeira branca tremula agora ao vento divino
o amanhã que não existe senão como promesso de um hoje sempre mais promissor
hoje o dia mais importante da minha vida
ciente duma responsabilidade e dum privilégio
a honra dum conhecimento esquecido
conexão singela e simples com a potência assustadora da profunda paz
a comunhão dum sentimento elevado
a partilha de armas e armaduras entre irmãos
na guerra pela luz
e me lembro de tudo
essa viagem de chá
insólita
que me tornou um com os vagalumes na floresta encantada
a intensidade dum sol queimando em minhas veias
o ardor duma loucura absurda que conquistei em inspirações um tanto desesperadas um tanto sábias
a morte do verme em mim
a nítida fronteira entre a volúpia e a morte
a noção de interpolação de todos os pensamentos vivos
como se minha mente fosse um pára-raios
recebendo relâmpagos imensos sem interrupção durante uma hora
quis saber como seria uma dose dupla e soube
e agora sei que pra se mudar de vida
basta mudar os pequenos hábitos
trocar uma refeição exagerada talvez por um bom chá de camomila
trocar uma masturbação funesta talvez por uma valsa favorita, um yoga
trocar um humor forçado e afetado talvez por alguma estaca zero do sorriso
trocar minhas opiniões enferrujadas talvez por um silêncio receptivo
trocar todo meu amor talvez por um todo novo, um novo começo impontuável
ah, propícia estação, cio da terra
ai das minhas lágrimas estancadas
pranto recluso se recusando à covardia
a água de mim querendo transbordar por excesso de alegria quântica
e então o cristal de mim segurando as pontas
pra lá e pra cá nas ondas do grande oceano de emoção
não choro
e faço relato inequívoco
do sucesso duma tranquilidade curiosa
sucesso que carrega uma imensa tristeza aos ombros
o peso de mil mundos e martírios
sustentado num coração dourado
doce como mel e forte como a própria vida
encerrando em si toda coragem que digere a miséria
concentrando forças em direção duma virtude simples, humana e mundana
e então o horizonte do homem
o ser humano em sua evolução tão constipada
o perigo da esperança cega
a certeza da necessidade de dádiva ímpia