Homagem

Ela vem de sopetão
Chovendo rosas e tulipas.

Ela não se preocupou
Se eu cheirava mal
O escambal!

Ela não se importou
Só o mínimo perguntou
Ela é puro alto astral!

Cheguei nela de sopetão
Com granizo de manjericão.

Ela me respondeu
Como pra um irmão
Lindos dias pra você ela dizia
E pra você dias lindos como você eu respondia.

Ela que era verso vivo
Rimou todas estranhezas
Fez dengo das destrezas.

Ela que era
O nome recluso
Que surgiria na pedra
Carvada misteriosamente.

Ela que era o último nome
Da cabala descabelada
Era bonita como sol
Era a derradeira paixão
Do sim.

Ela era a melhor poesia
Não dependia de palavras bonitas
Nem de grandes enlaces da inteligência
Seu deslumbre era o dia a dia
As vivências que emanava
Sua perfeita ode
Era mera consequência
Da vida que vivia.

Curricular

A dança
É o sétimo dan
Do silêncio.

Dançar é também
O grau supremo
Do saber ouvir.

Ninguém aprende
A aprender
Isto já se vai aprendendo
Apreende-se-se.

Mais tarde
Aprende-se a saber
Que é como ter em si
Taisquais partes de tudo.

Há boas coisas
Que ninguém ensina
Simplesmente
Sabe-se de coração
Ou não.

Há outras cousas
Que são a pura sina
Solarmente
Aí sonha-se o sonho
Ou faz-se demente.

Na apoteose da graça
Havia um sorriso secreto
De cada um
Que só Deus via
Quando admiravam uma alvorada
Quando amavam à paisagem.

O dom
Sacro
Era sazonal
Interina magia.

Fugaz nobreza
Da floração
De crer-se
Na beleza.

Beiçoqueiro

Pro homem
Bem beijar à mulher
Ele tem de ser três.

Pura matemática
Que contra os dois lábios dele
Ela sempre tem seis.

Peripérsias

Aqueles grande olhos
De mar aberto dela.

Ela que era a poesia viva dos dias e seus vendavais
Ela que fazia o tom dominador que baixava todas orelhas.

Desbravava
Escoteira
Risos
Que nutriam
A lama
O humus do sonho.

Tresvisão

A sorte acenara-lhe.

Ele tinha saúde bastante?
Perguntavam os velhos
De mandíbulas cimentadas
E peitos cadentes ansiosos.

O pior alarme
Soava
Rotundo
Num casamento
Entre ruído de geladeira
E estrondo de avião risível
Os pés diziam tudo
Atente ao frio
Atente às dobras das esquinas
Atente suave
Usa tua chave
Cadê o desespero
Que me prometeste?
Cadê o espírito guerreiro
Que certa alvorada doce
Vislumbramos sofia?
Lilás violeta
Tantas índias.

Quem não conhece o Brasil
Que me perdoe a ingratidão
A indelicadeza sem querer da mão
Que vem antropofagando de alastrão
A la tudo que é desastroso pro nome
A la tudo que desmantela as estruturas.

E por fim
Uma canção
De ninar
Intrometida
Consolando a criança
Sim criança nasceste
Não te lamente não arrependa
Ah filha minha
Descobre tudo
Que nao descobri!

Dos Esfrangalhados

De quem dança descalçado
Em qualquer pista encardida.

De quem samba meio cego
E beija os pés da atriz principal.

De quem faz muito fazendo pouco
De quem as donzelas roubam doces venenos
De quem bota o palco pra vibrar o coro pra comer
Garotada desconfusa salpicando eternidade no preparo.

De quem vê beleza na multidão
Se apaixona a toda hora no lotação
De quem corre pra lavar as roupas
E dá flores sem segundas intenções.

De quem quando pega
Faz valer
De quem quando bebe
Entorna a enternecer
De quem solta os freios na contramão
E se ilumina descartando a adequação.

De quem gosta de abacate com limão
De quem mete fundo a língua nas orelhas
De quem coloca amor em todas as linguagens e indagações
De quem não leva desaforo pra casa e se redime sem se vingar.

De quem sorri feito idiota
Pras criancas dos outros
De quem é brabo e não fraqueja
Mas se desculpa porque pouco almeja.

De quem tem frios na barriga
De quem chora sem saber porquê
De quem se arrepia todo tempo
De quem tira mel do tormento.

O melhor da vida
O mais bonito do mundo
O mais fundo da alegria
As favoritas dos grandes gênios
Isto e mais um pouco
É de quem quiser
É de quem pegar.

Cada coisinha
Em sua certa hora.

ESTÓRICO