Canis Diem

Não adianta
Preferem não saber
Optam pela ignorância
Todos os dias dizem amém
Ao estapafúrdio noticiário televisivo.

A verdade
Está lá fora
Cantou certa vez
A bossa da crueza.

Exasperam-me
Mas logo desisto
Me desleixo da opinião
Deixe que creiam na catequese
Que corroborem com todas as guerras.

O pensador
Pesquisador
O trágico e cômico
Cientista nato
Em seu rigor seu método
Tentava ajudar
Levantava a voz da clareza
Mas satirizavam-no
Mude-se pra cuba jamaica
Vá-se a samoas ou haitis diziam
Queremos a champagna de nova iorque
E riam-se a caminho do posto de vacinação.

Mas não há cura
Pra quem precisa de remédio
Salvam-se apenas os iletrados
Que dependem das moitas anciãs
Boldos e cidreiras.

Não haveria vingança
Nem recompensas
Não haveria justiça
Nem epifanias
Tudo seguiria seu curso.

De um lado os convictos
De ouvidos tapados
Vociferando da liberdade de expressão
E do outro lado
Os incertos
De bicos calados
E corações quietos
Buscando compreender a composição
O tom magistral da sinfonia implícita intermitente.

Impróprio

Talvez isto seja só um espasmo
Da mão revezando caligrafias
Mas eu queria confessar
Meu tesão descontrolado.

Quem sabe por aquelas
Que devesse ver apenas como amigas
Não sei
Se ao suspirar-lhas aos ouvidos
Ponho tudo a perder.

Os abraços
Pueris
Mas sinceros
E inspiradores
Que gotejam aqui e acolá
Em meio a todo respeito
Que não transgrido.

Quisera abandonar meus sistemas
E valores repressivos
Deixar por terra
Todo este medo
Que é no fim pouco mais
Que uma covarde estupidez.

Por que ter medo
De dar prazer?
Por que a ação mais desejada
É também a mais pavorosa?

Quisera fazê-las todas gozar
Doze treze mil vezes
Enquanto retenho toda minha proteína
Pra não perder o pique.

Sem artimanhas
Só queria amá-las
Livre de toda censura.

Mas aonde cheguei
Foi só numa confissão
De uma página.

Hipocracia

O louco
Lanou o linho
Da lei da lama.

Quero ver quem faz
Mais perfeito que isso
Quero só ver.

Quem é que me diz
Do que que é feito o som
E de que som é feito o amor
Quem é que me diz
Quantos caminhos um destino tem
E quantos destinos uma vida encara.

Quem é que vai me dizer
Porque que o mar muda de cor
Daonde que o sol faz o sabor
Qual o verdadeiro remédio pra dor.

Me dá algo mais perfeito que isso
Se é que há
Me dá qualquer coisa mais certa
Mais especial
Que morrer lutando pelo sonho.

Ah meu sonho absurdo
Oblíquo quem sabe obtuso
Ah minha sina forasteira
Estrangeira em toda parte
Sou um pródigo que nunca deixou o lar
E tufões fabulosos fazem minha colheita por mim.

Quero ver quem faz melhor que isso
Quem arranca o gemido na unha
Quem partilha o pão com o indigente
Quem é nato aos mergulhos no inferno
Quem samba em jejum e desiste do beijo
Quem odeia direito pra poder amar com tudo.

O sino soou
O sal assou
O sol sarou.

No chiqueiro
Dos donos do mundo
Discutiam novas leis
Planejavam os séculos por vir
Já nem viam mais a escravidão
Criam tolos já que o mundo
Era a eles submisso por opção.

E no festim de luxúria incólume
Entre selos pitos e bitocas
Os pobres coitados batucavam
Celebravam o dia da ternura
Como celebravam todos os dias
Foices de berros histéricos rasgavam o ar
A tribo abjeta gritava urras de perdão
Fazendo mandingas e capoeiras pérfidas
Irretocáveis agitando vida inédita no vão do museu.

Quero ver quem
Quem é que faz
Mais perfeito que isso
Mais perfeito que
Saber tanto assim
Por só saber respirar.

Meu avôzinho diria
Que sou sensível demais.

Desembaço

Sou o descontrolado
De desejos volúveis e imorais
O que perdeu o atino corriqueiro
Do respeito às velhas tábuas.

Sou o desordeiro
Do além confundido por demônio
O que quer o que se há pra querer
Carente abusado extravazando
Sacralizando o sacrifício
Da entrega ao prazer.

Sou o inócuo solitário
Banhado do próprio leite fértil
Gozozo das lembranças dos sonhos que nunca tive.

Um maníaco
Tarado agressivo e também medroso
Cúmulo de promessas quebradas
De corações partidos
De espíritos insaciados
As fomes que nenhuma imaginação satisfaz.

A hiena briguenta
Rindo sobre a carniça do próprio irmão
A tirana matriarca
Comprovando a soberania da ferocidade
Onde só os mais fortes têm direitos
Ulterior tribunal da impiedade.

Os fracos rogam por perdão
E a onipotente onisciência os satiriza
Diverte-se noutras bandas
Com as orgias silentes dos aborígenes.

Sou o perverso
O chacal
Espreitando esquivo
Sob o tênue luar
Preparando bote
Por vezes
Não pelo alimento
Mas pelo treino
Pela mais pura alegria
Do assassínio.

A ferraz investida
Incompreendida
Dá vida nova ao bando
Novos reinados do porvir
De leoas humanas.

Os abutres
Pacientes
Aguardam
Pelas migalhas dos santos.

Longevo banquete
Sem preces.

Psicodelícia

Nalgumas ocasiões ele sabia
Possuía a mais resoluta certeza
Possuiria enfim
Se não fosse ela quem o possuísse.

A verdade era relativa
E todas verdades eram parentes
Paternalidades partilhadas
Brincávamos de deuses
Criando o impossível da arte
Em ranhuras tranquilas das amizades.

O sopro vinha rasgante
Mas não tardava cessava.

Curtos ciclos
Curtas saias
Cultos cultos.

Nalgumas raras
Excelsas
Ocasiões inesperadas
Exalava o mais doce
Alvorada da sanidade
Déspota demente sanidade!

Ah pirata trêbedo
Fúrio de moléstia fácil e frouxa!
És um sidarta
Ou apenas mais um filhinho da mamãe?

Parcas respostas
A vida agora era outra
Em códigos de barras
E pândegas barradas no baile
O normal agora era ser perdido de si.

Então na sóbria esquina
De repente tudo era luz
Tudo era música intensa
Perfeição metaritmética
Sonho lúcido do existir.

A restaução era imprópria
Apropriava-se
Um estupro que inspirava gratidão tardia.

ESTÓRICO